
Introdução: A Crise do “Cristianismo de Consumo”
Nos dias atuais, o fenômeno do secularismo invadiu sorrateiramente a liturgia e o comportamento cristão, gerando uma mentalidade de “mercado religioso”. Muitos entram nos templos com a mesma postura de quem entra em um restaurante ou cinema: avaliam o louvor pela qualidade técnica, medem a pregação pela capacidade de entretenimento do orador e julgam a igreja pelo conforto dos assentos. Se o “produto” não agrada, simplesmente trocam de “fornecedor”.
No entanto, a eclesiologia bíblica, firmemente defendida pela Declaração de Fé das Assembleias de Deus e pelos instrumentos normativos da CEMAAD, rejeita veementemente o “cristianismo de consumo”. A Igreja não é um evento ao qual assistimos; é um Corpo ao qual pertencemos.
Existe uma diferença abismal e “magnética” entre um frequentador e um membro verdadeiro. O frequentador suga a energia da igreja local; o membro edifica. O frequentador exige direitos; o membro cumpre deveres. Este estudo visa resgatar a doutrina do pertencimento e a ética da membresia cristã.
I. A Teologia do Pertencimento: O Corpo Orgânico vs. O Ajuntamento Físico
A Bíblia não conhece a figura do “crente desigrejado” ou do “cristão autônomo”. A metáfora mais profunda utilizada pelo apóstolo Paulo para descrever a Igreja é a de um corpo humano: “Ora, vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular” (1 Coríntios 12:27).
Para compreendermos a diferença entre frequentar e ser membro, precisamos olhar para a anatomia:
- O Frequentador é como um adorno: Um relógio ou um anel está “no” corpo, mas não faz parte dele. Se for retirado, o corpo não sangra, nem o objeto morre. Ele está ali apenas por conveniência temporária.
- O Membro é como um órgão: Um braço, um olho ou um coração está organicamente ligado ao corpo. Se for arrancado, o corpo sangra e sofre (mutilação), e o membro amputado inevitavelmente morre, pois perdeu sua fonte de vida.
O frequentador não tem raízes. Ao menor sinal de crise, atrito ou correção pastoral, ele vai embora. O membro, por sua vez, está enxertado na videira. Ele suporta as aflições, perdoa as ofensas e permanece, pois entende que a Koinonia (comunhão) exige sacrifício mútuo.
II. A Diferença Prática: Consumidor de Cultos vs. Discípulo
À luz das Escrituras Sagradas, podemos traçar paralelos claros para que cada crente faça uma autoanálise do seu estado espiritual:
- No Foco da Adoração:
- O Frequentador vai ao culto para receber. Sua oração é centrada no “eu” (me abençoe, me cure, me prospere). Se ele não “sente arrepios”, diz que o culto foi fraco.
- O Membro vai ao culto para oferecer. Ele entende Romanos 12:1, apresentando seu corpo como sacrifício vivo. O culto é para Deus, e não para o entretenimento humano.
- No Envolvimento Financeiro:
- O Frequentador dá gorjetas a Deus, quando sobra ou quando sente vontade. Ele não se sente responsável pelas contas de água, luz, missões ou manutenção do templo.
- O Membro é dizimista e ofertante fiel (Malaquias 3:10; 2 Coríntios 9:7). Ele compreende, conforme o Estatuto da Igreja, que a manutenção da obra de Deus é seu dever moral e espiritual.
- No Serviço e Voluntariado:
- O Frequentador acha que o pastor e a diretoria são pagos para fazer tudo. Ele senta no banco, critica a limpeza, o som e o grupo de louvor.
- O Membro arregaça as mangas. Ele limpa, ensina, canta, visita os doentes e evangeliza. Ele exerce seus dons espirituais para a edificação mútua (Efésios 4:11-12).
III. A Perspectiva Normativa: O que dizem os Instrumentos da CEMAAD?
A organização institucional da Igreja Assembleia de Deus não é burocracia humana; é zelo apostólico pela ordem, decência e pureza doutrinária (1 Coríntios 14:40). Os regimentos internos e estatutos, baseados na Palavra de Deus, delineiam o que significa, na prática, estar em comunhão.
1. A Submissão à Liderança e à Disciplina O frequentador não tem pastor; ele tem “pregadores favoritos” no YouTube. O membro verdadeiro entende Hebreus 13:17: “Obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas”. O Regimento Interno estabelece que o membro está sujeito à disciplina eclesiástica (Mateus 18:15-17). Aceitar a correção pastoral é a prova máxima de que alguém deixou de ser um mero consumidor para se tornar filho da casa.
2. A Participação na Santa Ceia e na Assembleia A Santa Ceia não é um ritual aberto a simpatizantes casuais; é o sacramento da comunhão exclusiva do Corpo de Cristo (1 Coríntios 11:23-29). Participar da Ceia do Senhor em obediência, examinar a si mesmo e viver em paz com os irmãos é uma exigência normativa para a membresia ativa. Da mesma forma, participar das Assembleias (Reuniões de Membros) para deliberar sobre os rumos do ministério não é um peso, mas um privilégio de quem tem “cidadania” na igreja local.
3. O Testemunho Público e a Guarda da Sã Doutrina O membro carrega o nome da sua congregação e, mais importante, o Nome de Cristo. O Regimento prevê que o crente deve viver uma vida moral ilibada, fugindo dos vícios, da imoralidade e das obras da carne (Gálatas 5:19-21), guardando a Declaração de Fé da instituição contra os modismos teológicos.
IV. O Poder Magnético de “Ser Igreja”
Quando uma congregação local é formada por uma maioria de membros verdadeiros, e não apenas de frequentadores, algo espiritual e magnético acontece: o poder de atração do Espírito Santo é ativado.
Atos 2:42-47 descreve a Igreja Primitiva. Eles não tinham prédios luxuosos, nem luzes de palco, nem estratégias de marketing. O que eles tinham?
- Doutrina: “Perseveravam na doutrina dos apóstolos”.
- Comunhão e Cuidado: “Tinham tudo em comum… repartiam com todos”.
- Reverência: “Em cada alma havia temor”.
Qual foi o resultado desse pertencimento orgânico e profundo? “E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar” (v.47). O mundo não é atraído por uma igreja que imita os shows de entretenimento do mundo. O mundo é atraído (“efeito magnético”) quando vê um povo que se ama de verdade, que se perdoa, que suporta as cargas uns dos outros e que vive em santidade debaixo da autoridade de Cristo.
Conclusão: O Chamado para Sair da Arquibancada
O Senhor Jesus Cristo não derramou Seu precioso sangue na cruz do Calvário para criar um fã-clube de espectadores religiosos de fim de semana. Ele morreu para comprar, redimir e edificar a Sua Noiva, a Igreja (Efésios 5:25-27).
Estar no rol de membros da igreja (o livro de registros na secretaria) é fundamental para a ordem terrena e eclesiástica, orientada pela CEMAAD. Mas Deus nos chama a algo mais profundo: ter os nossos nomes escritos no Livro da Vida através do novo nascimento, e comprovar isso descendo da arquibancada do comodismo para o campo do serviço cristão.
Se você tem sido apenas um consumidor de cultos, o Espírito Santo lhe faz um convite hoje: lance raízes. Pare de pular de galho em galho à procura de uma “igreja perfeita” , ela não existe. Plante-se na sua congregação local. Ame o seu pastor, ore pelos defeitos dos seus irmãos, contribua com alegria, limpe o templo, abrace o visitante e chore com os que choram. Deixe de apenas ir à Igreja e comece a, de fato, ser a Igreja de Cristo na Terra.
0 Comments